"E foi nesse dia que deixei de te amar. Quando me passou a raiva, o ciúme e a tristeza de te ter perdido, porque, na verdade, nunca te tive por inteiro. Mas não te tenho mágoa e isso traz algum conforto à minha alma, agora de novo pacificada, leve e livre.
Quando há amor e mágoa, esta desaparece sempre primeiro. Se a mágoa prevalece é porque aquilo que existia não era amor verdadeiro. Perdoamos na medida em que amamos, já escrevi isto e não me importo de repetir, porque é verdade. Perdoamos na medida em que amamos. E quando deixamos de amar alguém e remetemos o nosso amado para o esquecimento, convencidos de que nunca conseguiremos perdoar, o esquecimento acaba por ser uma forma de perdão.
O ódio é o sentimento mais próximo do amor, odiei-te durante algum tempo, tal como me odiaste, mas agradeço a Deus já não te odiar. Sei que a amizade é impossível, mas não o será sempre depois de uma grande história de amor?
A maneira mais bela de recordar os outros é sermos a pessoa que fizeram de nós e viver a vida que nos ajudaram a construir. Tu fizeste de mim uma pessoa melhor e agradeço-te infinitamente por isso. E depois puxaste pelo pior de mim e também te agradeço, porque me fizeste ver os meus limites, estabelecidos pelo meu sentido de justiça e pela minha vontade, nunca por medo ou por imposições alheias. Mas não está nas nossas mãos mudar a natureza dos outros, e é nos momentos de despedida que se aprende mais sobre a condição humana. Eu serei sempre bélica, tu serás sempre diplomata, que é uma forma simpática de te chamar omisso. Eu serei sempre bruta e frontal, tu, quase nunca.
Guardo o melhor, e espero que o tempo não me traia a memória. Não quero esquecer todo o bem que fizemos e o que fomos um para o outro. A minha cegonha viajou pelo mundo, sobrevoando terras e mares e conheceu alguém da sua família que lhe deu o que ela mais precisava: amor, afecto e atenção. As estações passavam e ela adiava o regresso a casa, porque sabia que, nesse dia, voltaria ao bosque em busca do seu amor perdido. Eu sou a Adelaide, e tu és o urso Simão. Quem sabe, o urso encontrou alguém da sua espécie e teve crias e esqueceu a cegonha que sonhava que ele fosse mais apaixonado, mais forte, mais tudo?
Qual a moral da fábula? Quem não dá tudo numa relação, acaba por perder tudo o que tinha? Quando exigimos de mais dos outros, acabamos por perdê-los? A seu tempo, lá chegaremos, mas apenas quando a nossa história chegar a um ponto qualquer, seja ele o regresso ao porto de abrigo que, em tempos, fomos um para o outro, ou o fim do mundo marcado nos mapas antigos para onde as embarcações tombavam no vazio desconhecido. Por mais que me custe aceitar, o meu porto de abrigo já não passa por ti. Na verdade, nunca passa por ninguém, temos de o encontrar dentro de nós, ou estaremos perdidos para sempre. (...)
Mas quem sou eu para julgar a forma como consomes a tua vida? o facto de fazeres escolhas diferentes das minhas não me dá legitimidade para tal. Tenho que aprender a ser mais humilde. O que me pode dar legitimidade é gostar muito de ti e, consequentemente, não desistir de querer o melhor para ti, ainda que agora já não faça parte da tua vida, e que nos últimos meses apenas tenha estado presente em encontros fortuitos e clandestinos entre quatro paredes que incendiaram as nossas vidas separadas. (...) Nesses derradeiros encontros falei muito, mas, como sempre, quase parecias não me ouvir. Apercebo-me agora de que escutavas por educação, por passividade, porque sentias que era o minimo que podias fazer por mim. (...) Quanto a ti não sei o que de facto aprendeste enquanto estivemos juntos. A vida que levas hoje em dia é igual à que tinhas quando te conheci. (...)
Eu não merecia ter um tipo como tu na minha vida."